Vivo para estar em palco, ligado ao público

«Vivo para estar em palco, ligado ao público»

15 | 05 | 2012   12.25H

O marcante ‘Blue Moods of Spain’ tem 17 anos, mas o grupo de Josh Haden volta aos discos e aos concertos com um misto de inovação e reminiscência. As imperdíveis apresentações ao vivo são sexta-feira, 18, no Lux (Lisboa) e sábado, 19, no Hard Club (Porto). Haden à conversa com o Destak.

Patrícia Naves | pnaves@destak.pt

The Soul of Spain marca o regresso após mais de 10 anos; como o descreveria?

São 11 canções, mas muitas foram escritas nos tempos iniciais do grupo, sem nunca terem sido gravadas. Por exemplo Only One escrevi em 1992, a Miracle Man também, I Love You por volta de ’96...e também gravámos 5 ou 6 temas que não couberam no disco e ficam para o próximo.

Vai, então, haver um próximo?

Sim, é certo.

Fizeram o álbum com expectativas, preocupados com a reacção?

Se eu tenho expectativas, como artista, dou comigo em maluco. Eu mando as coisas para um chapéu e depois tiro o que acho que resulta, e muitas vezes o que acho que vai resultar não resulta e vice versa; e este disco surgiu tanto tempo depois do outro que tudo podia acontecer em termos de reacção. Então mentalizei-me que ia ser honesto comigo próprio e não tentar modelar as canções com base num conceito que podia estar errado para quem ouvisse...

Desde que começaram o disco até à edição demorou um pouco a sair, foi por perfeccionismo?


Não... começamos em Fevereiro de 2010 e acabamos em Fevereiro de 2012 e sim é muito tempo mas teve mais a ver com questões de logística, financeiras... não perfeccionismo, eu sou perfeccionista mas entendo que a dada altura temos de dizer ‘estas canções estão acabadas e temos de as pôr no mundo’. Senão posso perder anos com uma música sem nunca achar terminada...

E também com o som dos Spain, poderia estragar, é um caso de menos às vezes é mais?

Sim, exactamente. Há sempre a tentação de fazer demais e poderia estragar.

Os novos Spain, o novo grupo, como se juntaram?

Em 2004 fiz um disco a solo e reuni um grupo para os concertos. Dois desses membros são agora dos ‘novos’ Spain, o baterista e quitarrista/teclista, e portanto toco com eles à anos. O Daniel, guitarrista principal, é novo na banda e é uma história interessante porque um amigo do estúdio onde ensaiávamos conheceu-o numa festa e disse-lhe que um grupo precisava de um guitarrista. E quando falou em Spain ele ficou doido, era um fã desde a infância. Quando ele tinha 14 anos, fazia ‘road trips’ pelos EUA com os pais e o Blue Moods era o que o pai punha no carro, era mesmo fã... E tanto tempo depois, acabou guitarrista da banda.

A decisão de voltar agora, foi porque sentiu que tinha as pessoas certas ou porque tinha apenas saudades?

Foi uma combinação de ambos. Tinha de encontrar as pessoas certas, mas o saber que os fãs continuavam a pedir o regresso dos Spain foi a motivação para procurar as pessoas certas. Não sei se teria voltado não fosse a avassaladora e impressionante insistência das pessoas ao longo dos anos a pedir um novo disco.

Voltando ao início; quando um disco tem tanto sucesso como o Blue Moods of Spain às vezes torna-se quase uma maldição, ‘marca’ as bandas ou condiciona-as. Terá sido isso o que aconteceu aos Spain?

Até certo ponto, sim. Não consigo dizer até que ponto influenciou, mas sei pelo menos que queria fazer o 2.º disco logo de seguida mas o contrato não permitia, devido a promoção etc e se tudo tivesse podido andar mais rápido seria talvez diferente, seria a minha escolha.

Acha que hoje é mais fácil para os músicos, serem ouvidos, fazerem as coisas à sua maneira?

Acho que é muito mais fácil serem ouvidos. Acho também que a estrutura básica está lá e deve continuar, que deve continuar a haver editoras, disco físico, profissionais a ajudar a distribuir e promove-lo, porque a banda está muito ocupada. Mas ao nível básico do começar, a Internet torna tudo mais fácil, não era de todo o caso nos anos 90.

Mas com tanta coisa a surgir, o filtro não se torna mais difícil?

Sim esse é o reverso da coisa, se a qualidade não está lá ninguém se vai importar... às vezes sim mas percebe. Eu não posso julgar ninguém mas se me pedissem conselhos dizia às bandas para continuar a tentar e... pôr musica cá fora e o que resulta, resulta, e se não, não repetir os erros.

 

Está entusiasmado por voltar à estrada?

Muito. Sinto-me abençoado por poder voltar à Europa, tocar as minhas músicas e continuar a trabalhar.

Com temas tão emotivos, os concertos são, apesar disso, também esgotantes?

Sim, são... eles inspiram-me e dão-me energia, mas ao mesmo tempo sou uma pessoa tímida e não me sinto naturalmente equipado para estar num palco e ter tanta atenção. É algo com que tenho de lidar e pode ser cansativo mas ao mesmo tempo é revigorante e inspirador.. Eu vivo para estar em palco, ligado ao público, a tocar a minha música. Tudo o resto na minha vida está num segundo plano.

O que espera o futuro?

O objectivo é gravar logo o novo disco. A diferença entre os anos 90 e hoje é que podemos começar quando quisermos e andar ao nosso ritmo, a nossa editora europeia dá-nos liberdade; por isso talvez já este Verão estejamos a trabalhar no novo disco.

Patrícia Naves