SPAIN - SARGENT PLACE / Review

Se o seu negócio é caminhar pelo lado negro da Força, encarar a vida como uma noturna circunstância e procurar a escuridão no fim do túnel, talvez Spain seja a trilha sonora para o seu mundo. Não se engane, entretanto, ao pensar que a música produzida por essa incomum banda americana esteja próxima do tons Góticos, Pós-Punk ou mesmo das lentas e climáticas canções das formações do que se entende hoje por Post Rock. Spain faz música noturna, próxima ao Jazz de cabaré, com fumaça de cigarro e decadência exalando por todos os poros. Lembra aqueles trovadores solitários e quase caricatos de tão sofridos.

A banda é liderada por Josh Haden, filho do baixista de Jazz Charlie Haden, um dos gigantes do instrumento. Josh formou a banda em 1995 e logo lançou o belo The Blue Moods Of Spain, com sucesso moderado na Europa e na Austrália mas quase nulo em território americano. Mesmo assim,Spiritual, canção desse primeiro disco, foi gravada por Johnny Cash e por Pat Metheny (com participação de Charlie Haden), mostrando a força de Josh como compositor. A carreira de Spain sempre foi pontuada por hiatos e, num deles, a banda quase acabou, sendo totalmente reformada em 2007. Desde então, este é o segundo disco lançado, além de um EP. O clima é o mesmo, soturno e intencionalmente decadente, mas capaz de despertar nos pobres diabos que habitam a noite, o fundo do bar e as canções, uma certa noção de corporativismo, de união em torno do mesmo ideal, no caso, o leve e perene sofrimento. Não se espante, a música do Spain é interessantíssima e extremamente bem feita. Sargent Place foi produzido po Gus Seyffert, que já meteu a mão em estúdios para Black Keys , Norah Jones e Beck, entre outros, e gravado em seus domínios musicais, na rua de mesmo nome, na cidade de Encino, California.

Logo de cara, temos Love At First Sight, com vocais sussurados e embrigados de Josh Haden, ladeado por instrumental esparso e discreto, com baixo, bateria, guitarra e discretíssimas intervenções de órgão, como se fosse uma banda de bar tocando por seu último tostão. The Fighter aborda outra forma de melancolia, mas igualmente capaz de ser comportada por uma mesa de bar e uma bebida barata, em meio a sutis aparições de guitarra e teclados para emoldurar as lamúrias de Haden. Pianos e bateria setentistas servem de cama para fraseados elegantes de guitarra que pontuam It Could Be Heaven, elegante e fluida. A sensação de uma parada religiosa no meio de uma cidade acinzentada é a imagem que a introdução de From The Dust, enquanto uma inesperada levada aerodinâmica conduzSunday Morning, que poderia ser uma canção séria do Cake, sem qualquer canastrice.

Let Your Angel é o máximo de Gospel que Spain pode se permitir, um semi-blues, novamente sofrido e situado à beira de alguma estrada pra lá da meia-noite. To Be A Man é uma pequena jóia de sussurros vocais e instrumentais, na qual o silêncio é parte decisiva. A canção seguinte, In My Soul é bonita e solene, com bateria marcial se alternando a refrão insistente e guitarra harmoniosa. You And I vem em seguida, novamente privilegiando sutilezas instrumentais, mas com os versos românticos e supreendentemente inspirados: "You And I, we'll reach the sky, we'll learn to fly, just You And I", mostrando um pouco de esperança de surgimento de um sol por trás das nuvens. Waking Song, matutina e preguiçosa, pode surgerir um amanhecer mais harmonioso que o clima da noite, etílico e cruel.

 

Spain é um pequeno milagre no meio da cansada música alternativa. Sargent Place é bem feito, bem composto, bem tocado e com muita classe. Se você gosta desta forma ébria e nada fofa de autocomiseração, caia dentro.

Lucas Cassoli